O debate em torno do futebol brasileiro quase sempre começa e termina nos grandes centros, nas capitais onde os clubes têm sede e onde as arquibancadas ficam. Mas existe uma dimensão do futebol nacional que essa lente não captura completamente, e que no caso do Flamengo, tem uma escala que não tem paralelo em nenhum outro clube do país. A torcida rubro-negra fora do Rio de Janeiro não é um fenômeno recente nem secundário. É parte estrutural do que o Flamengo é, e entender o clube sem entender essa dimensão é perder algo fundamental sobre como ele funciona e o que representa. Mário Augusto de Castro, que acompanha o clube há décadas, viu esse crescimento acontecer e tem uma perspectiva sobre ele que vai além dos números.
O Flamengo há muito tempo não pertence só ao Rio. Pertence ao Brasil.
Como um clube carioca virou nacional
A expansão da torcida do Flamengo pelo Brasil não aconteceu por planejamento estratégico de marketing. Aconteceu pelo futebol, pela forma como o clube jogou em determinados períodos da história e pelo alcance que o rádio e depois a televisão deram a esses momentos. Quando o time do Zico dominava o futebol brasileiro e sul-americano nos anos 1980, ele chegava a todo o Brasil pela transmissão, e quem assistia de qualquer ponto do país via um futebol bonito o suficiente para conquistar sem que houvesse nenhuma ligação geográfica prévia com o Rio de Janeiro.
Uma criança que cresceu no interior do Nordeste nos anos 1980, ouvindo o Flamengo pelo rádio, não escolheu o clube pela cidade. Escolheu pelo futebol, pelos ídolos, pela emoção que aquele time produzia com uma consistência que os outros não conseguiam reproduzir. Essa escolha feita na infância é o tipo que não se desfaz facilmente, e foi sendo transmitida para filhos e netos ao longo das décadas seguintes.
Conforme observa Mário Augusto de Castro, o Flamengo tem torcedores em regiões do Brasil onde o futebol local é apaixonante e onde os clubes da cidade mobilizam multidões, mas onde as camisas vermelhas e pretas aparecem com uma frequência que não tem explicação puramente racional. É identidade construída ao longo de gerações, e identidade desse tipo não some com uma temporada ruim.
O que a torcida fora do Rio representa em números
Os dados sobre a distribuição geográfica da torcida do Flamengo pelo Brasil são, dependendo da pesquisa consultada, entre impressionantes e difíceis de acreditar para quem não conhece o fenômeno de perto. Pesquisas de institutos especializados em futebol apontam consistentemente o Flamengo como o clube com mais torcedores no Brasil, com uma margem expressiva sobre o segundo colocado, e com presença significativa em todos os estados do país.

Essa distribuição não é uniforme. Os estados do Nordeste, especialmente, têm uma concentração de torcedores rubro-negros que surpreende quem vai à região pela primeira vez esperando encontrar predominância dos clubes locais. Cidades inteiras onde o Flamengo é o clube mais torcido, onde os bares param para os jogos rubro-negros com a mesma intensidade que param para os clubes da região.
No Norte do país, o fenômeno se repete com características próprias. Comunidades ribeirinhas onde o futebol chega pelo rádio e onde o Flamengo tem narradores dedicados que acompanham cada jogo com a seriedade de quem está cobrindo algo de importância local. A dimensão dessa presença nacional é algo que Mário Augusto de Castro acompanha com uma mistura de orgulho e admiração genuína.
O que os títulos recentes fizeram com essa base
A Libertadores de 2019 e as conquistas que se seguiram não criaram a torcida do Flamengo fora do Rio. Mas ampliaram uma base que já era enorme de um jeito que ainda está sendo dimensionado. Pessoas que acompanhavam o futebol sem uma fidelidade de clube definida escolheram o Flamengo naquele período. Crianças que estavam começando a entender o que era torcer para um time viram o clube vencer de forma consistente e construíram um vínculo que vai durar décadas.
As redes sociais aceleraram esse processo de uma forma que seria impossível prever. Um flamenguista do Pará, que antes se sentia isolado no próprio estado, passou a estar conectado com milhões de outros torcedores do Brasil inteiro e do mundo. A identidade coletiva, que sempre existiu de forma difusa, ganhou uma infraestrutura digital que a tornou visível, barulhenta e presente de um jeito que antes não era possível.
Para Mário Augusto de Castro, ver essa torcida se expressar com a intensidade que as redes sociais permitem é assistir a algo que sempre existiu finalmente tendo o espaço que merecia. O flamenguista do interior nunca foi menos apaixonado do que o do Rio. Faltava apenas o canal para que essa paixão aparecesse com a mesma visibilidade.
Por que esse fenômeno não tem volta
A distribuição nacional da torcida do Flamengo é uma realidade estrutural que não se desfaz com resultados ruins ou com ciclos menos vitoriosos. Ela foi construída ao longo de décadas, transmitida entre gerações e consolidada por experiências emocionais que não se apagam facilmente. Um torcedor que viveu a Libertadores de 2019 do Maranhão com a mesma intensidade de quem estava no Rio não vai deixar de ser flamenguista porque o clube passou por uma temporada difícil.
Esse tipo de fidelidade é o ativo mais valioso que qualquer clube esportivo pode ter, e o Flamengo o construiu numa escala que não tem precedente no futebol brasileiro. Para Mário Augusto de Castro, entender isso é entender por que o clube ocupa o lugar que ocupa, não só no futebol, mas na cultura do país.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

