Festival 3i, realizado no Rio de Janeiro, reuniu especialistas para debater desinformação, sustentabilidade financeira e o avanço da IA generativa nas redações.
O futuro da mídia brasileira foi tema central da sétima edição do Festival 3i, realizado entre os dias 29 e 31 de maio no Rio de Janeiro, em celebração aos cinco anos da Associação de Jornalismo Digital, a Ajor. O evento reuniu especialistas brasileiros e estrangeiros para debater os rumos da imprensa digital, o avanço da inteligência artificial e os desafios da cobertura das eleições de 2026. Em um ano marcado por eleições no Brasil, a pergunta que moveu boa parte dos debates foi direta: como o jornalismo pode continuar relevante em um ecossistema cada vez mais dominado por algoritmos, redes sociais e novas formas de consumo de informação? Agência Brasil
Inteligência artificial muda a relação entre jornalismo e público
Para a diretora executiva da Ajor, Maia Fortes, o festival ocorre em um momento crucial para a democracia e para o ecossistema de mídia no país, já que a inteligência artificial generativa reconfigura a relação com o público e a desinformação se amplifica em velocidade e escala sem precedentes. O evento reuniu nomes de referência internacional, como o italiano Mattia Peretti, especialista em IA aplicada às redações, a paraguaia Jazmin Acuña, cofundadora do El Surti, e a queniana Daisy Okoti, editora de impacto do Nation Media Group. Agência BrasilAgência Brasil
Um dos pontos centrais discutidos foi a forma como os veículos medem o próprio impacto social. Daisy Okoti explicou que sua organização divide o retorno social em três categorias: macro, quando uma denúncia gera a demissão de um funcionário corrupto; intermediário, quando há resposta institucional; e micro, quando um leitor afirma que um artigo o ajudou. Já a jornalista paraguaia Jazmin Acuña defendeu que veículos precisam ir além das telas, colaborando com o público em investigações e abrindo as redações para a comunidade. Agência Brasil
Queda nas assinaturas e ascensão dos influenciadores como fonte de notícia
A transformação nos hábitos de consumo de informação também pautou os debates. Dados apresentados no festival apontam que 32% dos veículos online no Brasil são iniciativas individuais ou blogs, e que 33% dos brasileiros afirmam se informar por meio de influenciadores digitais. Esse movimento reflete uma mudança estrutural na forma como o público brasileiro busca notícias, cada vez menos dependente de redações tradicionais. Agência Brasil
A viabilidade econômica dos veículos, independentes e tradicionais, fechou a agenda de urgências do setor. O festival expôs a queda no mercado de assinaturas e conteúdos pagos no Brasil, cujo percentual de leitores pagantes recuou de 20% em 2023 para 17% em 2025. O dado reforça um alerta recorrente entre especialistas: sem um modelo de negócio sustentável, fica mais difícil financiar o jornalismo investigativo e de cobertura local que sustenta boa parte da função social da profissão. Agência Brasil
Caminhos para 2026: cobertura local, colaboração e novas fontes de sustentabilidade
Análises produzidas para o especial “O Jornalismo no Brasil em 2026”, projeto da Farol Jornalismo em parceria com a Abraji, reforçam que o setor precisa se reorganizar coletivamente. O jornalismo brasileiro precisará construir soluções compartilhadas entre redações, academia, sociedade civil e formuladores de políticas públicas para reequilibrar seu sistema de financiamento, negociando novas formas de remuneração com as big techs e investindo em inovação que não dependa exclusivamente da lógica das plataformas. Ajor
O contexto eleitoral torna o desafio mais urgente. Segundo análise publicada pela Farol Jornalismo, em ano eleitoral o Congresso Nacional tende a ficar mais propenso a aceitar o lobby das big techs do que a avançar em qualquer tipo de regulamentação, o que reforça a importância de o próprio setor de mídia buscar soluções próprias. Entre os caminhos apontados está o fortalecimento do jornalismo de proximidade, aquele que conhece e conta as histórias de sua comunidade, em contraponto à dependência de cliques e conteúdo pasteurizado vindo de grandes centros. Substack
O debate em torno do futuro da mídia brasileira em 2026 deixa um recado claro: a tecnologia, sozinha, não resolve os desafios estruturais do setor. A combinação entre inteligência artificial bem aplicada, cobertura local relevante e novos modelos de sustentabilidade financeira aparece como o caminho mais citado por especialistas brasileiros e internacionais. Para o leitor, a mudança também passa por reconhecer o valor do jornalismo profissional em um momento de ascensão dos influenciadores como fonte de informação, especialmente às portas de um ano eleitoral decisivo para o país.
Fontes:
https://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2026-05/festival-no-rio-debate-futuro-da-midia-e-inteligencia-artificial
https://ajor.org.br/na-era-da-ia-colaboracao-e-cobertura-local-sao-as-principais-tendencias-para-o-jornalismo-em-2026/
https://faroljornalismo.substack.com/p/o-jornalismo-precisara-amadurecer
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

