O custo de assinatura de software corporativo tem subido até 25% ao ano em muitas categorias, e uma parcela crescente de empresas já substituiu pelo menos uma ferramenta relevante por uma solução construída internamente. O que antes parecia decisão simples de comprar o que já existe no mercado virou, para times de tecnologia, um cálculo mais complexo de custo ao longo do tempo.
Na avaliação de Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira, CTO, o erro mais comum nessa decisão é comparar apenas o preço da assinatura com o custo de desenvolver, sem projetar como cada opção se comporta conforme a empresa cresce e o time de usuários aumenta. Esse tipo de comparação rasa costuma favorecer a opção mais barata no primeiro ano e mais cara nos cinco seguintes.
Por que a conta de comprar cresce mais do que parece no início?
Modelos de precificação por usuário parecem previsíveis no primeiro contrato, mas escalam junto com o time, e o valor mensal que fazia sentido para vinte pessoas pode pesar de forma diferente quando a equipe chega a duzentas. Somado a isso, integrações, módulos extras e limites de uso empurram o custo real bem além do que aparece na proposta inicial.
Comprar uma plataforma e customizá-la também tem um ponto de ruptura. Uma solução pensada para cobrir 80% da necessidade, com 20% de ajuste sob medida, tende a funcionar bem, mas, quando esse ajuste cresce para mais da metade do produto, a empresa acaba presa a um fornecedor enquanto ainda paga por ele, sem o controle que justificaria ter construído a solução desde o início.
O critério que decide entre construir e comprar
A pergunta que separa as duas opções não é o preço, mas se aquele sistema está no centro da vantagem competitiva da empresa. Processos administrativos comuns, como folha de pagamento ou CRM básico, raramente justificam desenvolvimento próprio, porque o ganho de diferenciação é baixo diante do esforço de manter esse sistema funcionando ao longo dos anos, com equipe própria dedicada a um problema que outras empresas já resolveram melhor.

Como destaca Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira, sistemas que carregam a proposta de valor da empresa, como um motor de precificação próprio ou um fluxo de onboarding específico do negócio, costumam justificar o investimento em construção interna, mesmo sendo mais caros no primeiro momento.
Como a inteligência artificial mudou o cálculo do desenvolvimento próprio?
Ferramentas de IA reduziram o custo das etapas iniciais de um desenvolvimento próprio, como estrutura base do sistema e código repetitivo que antes consumia boa parte do orçamento de um projeto novo. Esse ganho aproximou o preço de construir do preço de assinar, especialmente em soluções menores.
Conforme detalha Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira, essa mudança não elimina o esforço de manter o sistema depois de pronto, e times que decidem construir apenas porque ficou mais barato no início costumam subestimar o custo de operação nos anos seguintes ao lançamento. Manutenção, atualização e correção de falhas continuam exigindo uma equipe dedicada, mesmo quando a primeira versão saiu rápida e barata.
Construir ou comprar não é uma escolha definitiva para a empresa toda
Empresas maduras nessa decisão raramente escolhem um caminho único para todo o portfólio de sistemas. Comprar ferramentas para processos padronizados e construir apenas os fluxos que tocam diretamente o cliente costuma equilibrar velocidade de entrega com controle sobre o que realmente diferencia o negócio, sem sobrecarregar o time de tecnologia com manutenção de sistemas que não precisavam ser próprios.
Na interpretação de Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira, tratar cada sistema como uma decisão isolada, e não como parte de um portfólio único, é o que evita tanto o excesso de assinaturas quanto o desenvolvimento interno de algo que o mercado já resolve melhor. Revisar esse portfólio periodicamente, sistema por sistema, mantém a decisão alinhada ao momento real da empresa, não apenas ao que fazia sentido no ano da contratação.

