Levantamento identifica ao menos 40 vídeos de inteligência artificial sobre política brasileira com grande circulação nas redes sociais; avanço da tecnologia aumenta preocupação com deepfakes e desinformação durante a campanha eleitoral
A inteligência artificial está ganhando espaço rapidamente no debate político brasileiro. Entre fevereiro e junho de 2026, pelo menos 40 vídeos produzidos com IA sobre o cenário político-eleitoral brasileiro viralizaram nas redes sociais, segundo levantamento divulgado nesta quarta-feira, 12 de agosto. O volume representa uma média superior a dois vídeos virais por semana no período. (Poder360)
O crescimento ocorre justamente durante a aproximação das eleições de 2026, quando redes como Instagram, TikTok, YouTube e outras plataformas digitais assumem papel importante na circulação de informações políticas. Com ferramentas de IA generativa cada vez mais acessíveis, produzir vídeos aparentemente realistas tornou-se mais simples, rápido e barato.
O fenômeno não significa que todo conteúdo político produzido com inteligência artificial seja necessariamente falso ou irregular. A tecnologia pode ser utilizada de maneira legítima para edição, criação audiovisual e comunicação. O problema aparece quando imagens, vozes ou situações artificiais são apresentadas de forma capaz de confundir o eleitor sobre aquilo que realmente aconteceu.
Mais de dois vídeos políticos de IA viralizam por semana
O levantamento divulgado pelo Poder360 contabilizou ao menos 40 vídeos de inteligência artificial relacionados ao cenário político brasileiro que alcançaram grande repercussão entre fevereiro e junho. A média superior a dois conteúdos virais por semana mostra como a mídia sintética já passou a integrar a comunicação política nas plataformas digitais. (Poder360)
A facilidade para produzir esse material é um dos fatores que ajudam a explicar o crescimento. Ferramentas generativas atuais conseguem criar imagens, modificar vídeos, sintetizar vozes e produzir cenas inteiras a partir de comandos relativamente simples.
Nas redes sociais, esse tipo de conteúdo encontra um ambiente especialmente favorável à disseminação. Vídeos curtos, surpreendentes ou emocionalmente carregados podem receber milhares de compartilhamentos rapidamente, muitas vezes chegando ao público sem informações suficientes sobre sua origem ou processo de produção.
Deepfakes entram no centro das eleições de 2026
Um dos maiores desafios são os chamados deepfakes, conteúdos sintéticos capazes de reproduzir ou manipular características visuais e sonoras de uma pessoa. Dependendo da qualidade da produção, um usuário pode ter dificuldade para perceber imediatamente que determinada fala, imagem ou situação nunca aconteceu.
O problema ganha dimensão especial durante uma eleição. Um vídeo artificial atribuindo declarações inexistentes a candidatos ou outras figuras públicas pode circular rapidamente antes que verificadores, plataformas ou autoridades consigam esclarecer sua origem.
A preocupação não é apenas teórica. Em julho, por exemplo, o PT acionou o Tribunal Superior Eleitoral e apresentou uma notícia de fato ao ministro Alexandre de Moraes após a exibição de um vídeo produzido com inteligência artificial de Jair Bolsonaro durante o lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. O partido alegou violação das regras eleitorais; o episódio exemplifica como o uso político de IA já chegou ao campo jurídico-eleitoral. (Poder360)
TSE estabeleceu regras para inteligência artificial
O Tribunal Superior Eleitoral atualizou em 2026 as normas aplicáveis ao uso da inteligência artificial nas eleições. O tribunal afirma que o combate à desinformação é uma de suas prioridades e estabeleceu regras específicas para conteúdos sintéticos utilizados durante a disputa eleitoral. (Justiça Eleitoral)
Entre as preocupações está a utilização de conteúdo digitalmente manipulado para criar fatos falsos ou alterar a percepção do eleitor. As regras também procuram dar maior transparência ao uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral.
Outro ponto importante é o calendário. Segundo o TSE, a propaganda eleitoral de 2026 passa a ser permitida a partir de 16 de agosto. Isso significa que a circulação desses conteúdos entra em uma fase ainda mais sensível à medida que campanhas e candidatos intensificam suas estratégias de comunicação digital. (Justiça Eleitoral)
Plataformas também desenvolvem ferramentas contra deepfakes
As próprias empresas de tecnologia vêm adotando mecanismos para enfrentar o problema. O YouTube, por exemplo, começou em 2026 a disponibilizar para determinadas figuras públicas uma ferramenta capaz de localizar vídeos que possam utilizar sua aparência em conteúdos produzidos ou modificados por inteligência artificial.
A pessoa identificada pode revisar o material encontrado e solicitar sua retirada. A remoção, entretanto, não é automática e depende da análise realizada de acordo com as políticas da plataforma. (Folha de S.Paulo)
Esse tipo de tecnologia pode ganhar importância durante a campanha brasileira. Quanto maior o volume de vídeos publicados diariamente, mais difícil se torna realizar verificações exclusivamente por análise humana.
Como o eleitor pode identificar conteúdo suspeito?
Não existe um método infalível para reconhecer vídeos produzidos por IA apenas olhando para a tela. A qualidade dos modelos generativos está aumentando rapidamente e algumas inconsistências que antes denunciavam uma montagem estão ficando menos evidentes.
Por isso, antes de compartilhar um vídeo político surpreendente, é recomendável verificar quem publicou originalmente o conteúdo, procurar a mesma informação em veículos jornalísticos confiáveis e observar se existe confirmação por outras fontes independentes. Também é importante desconfiar de vídeos muito curtos ou apresentados sem contexto.
Outra precaução é evitar considerar um vídeo verdadeiro simplesmente porque ele parece realista. Voz, movimentos faciais, iluminação e sincronização labial podem ser reproduzidos artificialmente com níveis cada vez maiores de qualidade.
Redes sociais entram em período decisivo
A combinação entre eleições, inteligência artificial e redes sociais deverá transformar 2026 em um teste importante para plataformas, autoridades eleitorais, campanhas e usuários brasileiros.
O número de vídeos políticos gerados por IA que já conseguiram viralizar antes mesmo do início oficial da propaganda eleitoral mostra que a tecnologia não será uma questão periférica nesta eleição. Ela já faz parte do ambiente de comunicação no qual candidatos e eleitores estão inseridos. (Poder360)
Com a propaganda eleitoral autorizada a partir de 16 de agosto, a tendência é que a quantidade de conteúdos políticos aumente significativamente nas próximas semanas. Nesse cenário, identificar a origem de vídeos, diferenciar montagens de registros autênticos e compreender quando a inteligência artificial foi utilizada tornam-se habilidades cada vez mais importantes.
Para o eleitor brasileiro, a principal mudança pode ser justamente essa: ver já não será suficiente para acreditar. Em uma eleição marcada pelo avanço da IA generativa, conferir a fonte e buscar confirmação antes de compartilhar conteúdos políticos pode se tornar uma das principais formas de evitar a propagação de desinformação.
Fontes:
Poder360 — levantamento divulgado em 12 de agosto sobre vídeos políticos produzidos com inteligência artificial. (Poder360)
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — regras para utilização de inteligência artificial nas Eleições 2026. (Justiça Eleitoral)
TSE — calendário e novas regras da propaganda eleitoral de 2026. (Justiça Eleitoral)
Folha de S.Paulo — ferramenta do YouTube destinada à identificação de deepfakes envolvendo figuras públicas. (Folha de S.Paulo)

